O acampamento nas horas noturnas testemunhou uma densa bruma e o barulho longínquo de trovões anunciando uma tempestade para as bandas das montanhas. Ainda antes do amanhecer, os vigias do turno foram surpreendidos com a aproximação de uma guerreira que chamou-se de Fúria e declarou a intenção de permanecer com o grupo e ir em direção de seja onde em busca de algum tesouro, tal como havia ouvido algumas horas antes na Taverna da Raposa Vermelha.
Quando o alvorecer iluminou o ambiente, mas não dissipou a névoa, Waldemar arrumou suas coisas e partiu junto com apenas uma parte do grupo, após uma votação, para o Posto Avançado dos Anões, deixando a ideia de seguir os rastros do combate recente para um outro momento. Seguiram com o guerreiro da montanha a elfa Nêmesis, o anão Bontim, Pedrinho, o Amável e Fúria.
Lentos e com os olhos pousados nos detalhes do caminho para que os seus pés não se desviassem da estrada correta, o grupo seguiu quase sem visibilidade até a entrada do Posto. A passagem incrustada no corpo da montanha aparentava ainda mais agourenta no misto de bruma e sombra.
Sem perder tempo com lugares já explorados, os aventureiros seguiram até a última sala segura, um local retangular, cheio de camas de palha. Respirando fundo, Bontim observou o mapa e Nêmeses sussurrou sobre os riscos que aguardavam o grupo após a porta que parecia observá-los com olhos invisíveis aos mortais.
Preparando-se para a exploração, anão e elfa escutaram uma respiração pesada, lenta e baixa vindo do corredor. Diante disso, todos prepararam as armas e respiram fundo, enquanto Pedrinho fez uma prece pela segurança do grupo.
Ignorando a passagem à direita, os aventureiros tomaram a esquerda no corredor, mesma direção onde a sombra gosmenta havia se arrastado em fuga na expedição anterior. O longo caminho os levou ainda mais para o interior da construção onde as chamas das suas tochas pareceram arrefecer mais rápido e a luz que dela emanavam aparentava pálida e fraca.
Observadora, Nêmesis avisou ao grupo que aquela situação com as tochas não deveria ser outra coisa se não uma reação a estranha substância que envolvia todas as paredes e talvez até mesmo o teto, impossível de ser visto nas sombras sobre as cabeças deles.
Temerosos, mas movidos pela curiosidade e pelo ímpeto, os aventureiros seguiram até que o corredor lhes levou até uma escadaria e a uma porta. Fúria, Waldemar e Nêmesis tomaram o caminho da escada e se puseram a descer os seus degraus. Enquanto isso, Bontim parou para investigar a porta sob os cuidados de Pedrinho.
Concentrado na porta, Bontim descobriu barulhos de respiração ainda mais forte e um som de algo movendo-se, úmido, pegajoso, do outro lado da porta. Ao mesmo tempo, Nêmesis avisava a Fúria e Waldemar que algo estava errado no fim da escadaria.
Por um triz, e graças ao chamado da ladina elfa, a dupla de guerreiros foi capaz de evitar ser pega de surpresa por uma criatura de cor negra, disforme e cheia de estranhas membranas tentaculares. Recuando com agilidade para avisar ao restante do grupo, Fúria e Waldemar abandonam a escada, no entanto, a criatura chicoteia a pele de Waldemar, abrindo em sua carne um ferimento.
Da parede, a substância viscosa e negra transforma-se em tentáculos e prende Bontim e Pedrinho, evitando que o grupo bata em retirada rapidamente. Fúria, Waldemar e Nêmesis gastam tempo para queimar os tentáculos e salvar seus companheiros. Em meio ao caos, os aventureiros arremessam frascos de óleo e tochas, torcendo e rezando para que o fogo seja o suficiente para garantir uma retirada segura.
Lançados os dados do destino, óleo e fogo se misturaram a carne diabólica da entidade e se alastraram. As labaredas devoraram a escuridão com rapidez diante dos olhos dos aventureiros. As sombras cederam espaço durante minutos para uma luz nervosa e uma sala ampla com colunas e duas portas se revelou.
Antes que a escuridão tomasse todo o lugar, Pedrinho acendeu uma outra tocha e o grupo decidiu verificar as duas portas da sala. Na direita, Nêmesis garantiu que não havia som ou voz de qualquer natureza, mas naquela à esquerda, um ruído semelhante aquele que a criatura recém enfrentada fazia podia ser ouvido.
Os aventureiros engoliram seco, verificaram seus equipamentos e decidiram não abusar de sua sorte. Sem moedas, mas com suas vidas, Waldemar, Fúria, Pedrinho, Bontim e Nêmesis resolveram voltar para Vau Bruno com mais uma história para contar na taverna.